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quinta-feira, 24 de janeiro de 2008

Por que o FED não vai nos salvar

Artigo publicado na revista NewsWeek após o corte de juros de 0.75 pontos percentuais, pelo Banco Central americano.

Bernanke e as empresas estão usando todas as suas munições, mas os problemas originais mantém-se com o dólar baixo e com o débito americano, argumenta Allan Sloan - editor-sênior da NEWSWEEK magazine.

NEW YORK (Fortune) - Esqueça todas aquelas explanações racionais sobre por que os mercados financeiros estrangeiros, especialmente a Ásia, derreteram por dois dias. Apesar do que você tem lido, visto e ouvido por aí, aquelas quedas não foram causadas por medo do que uma recessão nos Estados Unidos possam afetar os lucros das companhias que são negociadas na Índia, China e Rússia.



Ben Bernanke

Presidente do FED

Pelo contrário, as despencadas são momentos de pânicos de um mercado acomodado, onde a racionalidade é jogada pela janela tão logo alguém tente colocar a cabeça para fora da porta todos saem espezinhando-se para querer sair também. Mercados que “vão-que-vão”, especialmente na Ásia, têm subido para alturas ridículas - eles estão subindo porque estão subindo, e o sentimento geral alimenta-se nisso de novo e de novo, e não pára de subir.

O fato de que o Banco Central americano (FED) anunciou um corte de emergência de 0.75 pontos percentuais nas taxas de juros de curto prazo mostra que o FED pensa que o problema é um pânico no mercado e não problema nos fundamentos econômicos. Normalmente, o FED teria esperado até o meio-dia da próxima terça-feira (o segundo dia do encontro de dois dias que realizam periodicamente) para anunciar um corte nas taxas de juros. Anunciando um corte de juros fora da data programada e antes dos mercados financeiros abrirem demonstra que a única motivação foi para acalmar os mercados e não para revigorar a economia americana.

Aqui está o por quê. Primeiro, não estará bem claro até o próximo verão americano se uma recessão está realmente por vir nos Estados Unidos. Mesmo que a economia nacional tenha demonstrado um certo encolhimento em dezembro, não existe recessão de um mês. “Uma recessão é um significativo declínio nas atividades econômicas que abrange diversos setores da economia, e que dura mais do que alguns meses,” de acordo com as maiores autoridades em tais assuntos: o comitê do Escritório Nacional de Pesquisas Econômicas americana.

Segundo, mesmo que você acredite que o corte na taxa básica de juros do FED vá estimular a economia, isso não vai acontecer do dia para a noite. Se você convidar um economista do FED para alguns drinks e prometer não citá-lo depois, ele contará que os benefícios de um corte na taxa de juros levam no mínimo seis meses para terem efeito na economia.

Houveram pânicos e calafrios por todo o mundo desde o último verão americano, quando o desastre dos créditos podres (junk mortgage) nos Estados Unidos começou a acelerar-se. Mas as sequelas ficaram restringidas na maioria dos casos ao mercado de débitos - diferentemente do índice Dow Industrials - isso não ressoa na vida da maioria das pessoas comuns e suas consequências não pode ser agrupadas matematicamente em um número, como o índice Dow Jones é.

Mas agora, há um pânico nos mercados financeiros, que está visível para todos verem. No último ano, 41 entre 100 das ações que melhor performaram foram da Índia, de acordo com os índices Russell. O mercado de Shangai praticamente dobrou de valor.

Isso não faz sentido a menos que você considere que os mercados da Índia e de Shangai eram desconhecidos pelos investidores antes de 2007 - e não eram. Se o FED não tivesse feito nada hoje (22/01/2008) o Dowe teria facilmente caído 600 a 800 pontos. Pelo contrário, ele fechou caindo menos do que 130 pontos.

O problema é que o FED tem apenas um punhado limitado de munição de corte de juros, e gastou muito dela hoje. Há a expectativa no mercado que ainda haja novamente um corte de juros na próxima semana, e terão gasto ainda mais cartuchos.

Eu não quero cair no jogo “o-que-o-FED-deveria-fazer” - eu sou apenas um major inglês reformado, o FED é cheio de pessoas brilhantes com doutorado e com acesso a informações que eu não tenho - mas eu continuo a observar muito inquietamente as taxas de juros caírem no momento em que nós estamos tão dependentes de dinheiro estrangeiro para cobrir nossos déficits comerciais e os déficits no orçamento americano.

Estou também menos emocionado ainda, observando os preços das commodities subirem, embora o preço do petróleo tenha caído ultimamente. Já há sinais preocupantes de que estrangeiros, que mantém reservas em moeda local, estão, de forma crescente, cansando de perder dinheiro com a desvalorização do dólar. E caso a queda do dólar torne-se um incômodo para os mercados, podemos então realmente esperar que a coisa fique preta.

Olhe! Nós não podemos depender do FED (ou de nenhuma instituição individual) para salvar-nos. O FED não é todo-poderoso (e também não era todo-poderoso sob o comando de Alan Greenspan). O atual presidente do FED - Ben Bernanke - não tem uma varinha mágica que ele possa sacudir para fazer tudo certo em Wall Street ou em Main Street - designação para pequenos comércios locais. Ele está fazendo o melhor que pode, mas a influência do FED não é a mesma de quando os mercados financeiros eram muito menores do que são agora, e longe de serem regulados.

Por causa do déficit comercial e no orçamento do governo, os Estados Unidos têm se preocupado com o que o resto do mundo pensa. O que naturalmente ocorre quando se é uma nação deficitária. Há enormes riscos em cortar a taxa de juros, e riscos, também, em ter que emprestar ao Tio Sam outros 150 a 200 bilhões de dólares (primeiramente proveniente de estrangeiros) para financiar um pacote de estímulo econômico de curto prazo.

Nota de Autor: no longo prazo, os mercados são geralmente racionais. No curto prazo eles são… bem, mercados. Eles estão inclinados a subidas e descidas repentinas e irracionais. Não expere dos mercados que eles reajam do modo que você quer que eles reajam. E não espere o FED para salvá-lo se eles não reagirem como você esperava.

Mensalinho

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