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quarta-feira, 21 de novembro de 2007

Alô, câmbio?

Nosso presidente foi um dos primeiros a endossar a maravilha que deve ser o crescimento das reservas cambiais do País em dólar, e junto com ele a maioria da imprensa, como era de se esperar.

Hoje mesmo, a Gazeta Mercantil vaticina:
Ao optar por intervir no mercado toda vez que o dólar ameaça um movimento mais forte de queda em relação ao real, o BC eleva as reservas internacionais e reduz a vulnerabilidade externa do País.
A afirmação não deixa de ser, com muito esforço, uma meia-verdade, pois se é verdade que as reservas garantem o pagamento das dívidas em dólar, também é fato que o governo passou a acumular mais e mais dólar justamente no momento em que essa moeda passou a sofrer uma maior depreciação frente à outros pares, o que por si só traz dúvida quanto à real lucratividade e otimismo com que se encara o assunto.


Vejamos abaixo, por exemplo, a explosiva evolução no acúmulo brasileiro na posse de títulos do tesouro americano, que registra módicos 230% em 16 meses:
Valores em bilhões de dólares

Fonte: Depto do Tesouro - EUA


Não vou entrar no mérito aqui de avaliar se é um bom negócio ou não deter mais de 100 bi de dólares em títulos que rendem pouco mais de 5% ao ano (sem descontar a diferença cambial e a inflação), mas apenas quero me ater no que julgo ser a essência da política cambial de qualquer país hoje: nenhum governo no mundo quer um câmbio forte.

Isso pode parecer estranho, sobretudo quando as autoridades se põem diante dos holofotes para dizer justamente o contrário, que querem defender a moeda e o poder de compra da população, porém na prática o que está diante de nosso olhos é uma gigantesca competição mundial em busca de uma moeda fraca.

O câmbio hoje se tornou uma mera ferramenta de luta, luta essa que envolve os países em uma espécie de 'nova guerra comercial', na qual a moeda fraca é essencial, pois é ela que permite exportar e competir com maior vantagem frente à outros exportadores. Vejam a gritaria nesse momento entre exportadores na Europa, queixando-se contra a força do Euro frente ao Dólar, ao mesmo tempo em que as empresas americanas com forte presença internacional coletam excelentes resultados obtidos no além mar e se beneficiam duplamente: tanto na vantagem de oferecer preços mais baixos em seus produtos, quanto na hora de converter os pagamentos de outras moedas mais fortes para o dólar.

Porém, essa nova guerra comercial tem um preço, e ele se chama inflação.

Para poder continuamente segurando o câmbio, para que ele não se fortaleça demais, os bancos centrais ao redor do mundo, tal como o nosso Banco Central, precisam expandir sua base monetária e de crédito com o propósito de comprar os dólares que entram. E esses dólares acabam voltando ao mercado, seja financiando o déficit americano, como o caso brasileiro que vimos acima, ou mesmo voltando às bolsas, financiando empreendimentos, e por aí vai.

Desde o começo da década de 70, quando os Estados Unidos acabaram com o atrelamento de sua moeda ao ouro, não há falta de dólares no sistema econômico. E para complicar ainda mais, nos últimos anos tem havido excesso, e esses dólares são um mero instrumento pelo qual os Estados Unidos exportam a própria inflação para o restante do mundo. E isso tem exigido dos bancos centrais uma expansão cada vez maior de suas moedas para absorver a maior quantia possível de dólares. Sem essas intervenções de compra de dólares, o câmbio local ficaria muito fortalecido e prejudicaria demais a posição exportadora de cada país no mercado mundial.

Para se ter uma idéia do esforço por parte dos bancos centrais ao redor do mundo para se defender da inflação americana, vejam as taxas de expansão de alguns bc´s na relação ano-a-ano:

Fonte: Bloomberg


Por 'coincidência', a maiores taxas estão em países fora do G7, e é justamente esses mercados que tem performado melhor nos últimos anos.

Há muita inflação no sistema, e esse crédito/liquidez acaba por ter que encontrar um local para pousar, razão pela qual temos visto nos últimos anos praticamente todos os mercados de todos os setores subirem juntos, anulando correlações passadas.

Por conta dessa corrida, eventualmente todas as moedas do globo acabarão, no dizer de Doug Casey, encontrando seu valor intrínseco. E após tantos anos de excesso, não me surpreendeira se esse valor fosse zero.

Cinco Pesos de Dois Quilos

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