Plus500

quinta-feira, 22 de novembro de 2007

Nem touros, nem ursos

Ivan Siqueira

Idéias são idéias, não passam de idéias! O problema é que algumas idéias podem mudar o rumo das coisas, e mudam, e, às vezes, mudam para pior! O que estou tentando dizer, mas, delicadamente, é que não devemos acreditar em tudo, sem antes questionar o tudo! E, até essa minha idéia, também merece ser questionada, claro!

É porque algumas coisas que são ditas por aí são plasticamente bonitas, fazem efeito, mas contém pouco de verdade. Na macroeconomia, por exemplo, existe uma expressão que agrada a todo mundo, é “desenvolvimento auto-sustentável”, quando a gente lê isso pela primeira vez, dá vontade de sair repetindo isso, de tão bonito que é essa expressão, assim, você ouve isso na boca de ministros, presidentes, senadores, e muita gente boa, basta vermos as entrevistas que eles dão, ficou registrada lá no jornal, na TV. Mas, é difícil que alguém possa sustentar o que seja isso, desenvolvimento auto-sustentável! Isso não existe, foi falado um dia por alguém, vem lá da década de 70, e a partir daí, todo mundo enche a boca e manda: “assim atingiremos o desenvolvimento auto-sustentável!”. Mas a teoria do desenvolvimento não parou na década de 70, muita água já rolou!

Não existe desenvolvimento auto-sustentável, pela simples razão de que os mecanismos que geram o desenvolvimento são os mesmos que têm necessidade de encerrar o processo de desenvolvimento, a acumulação de capital se esgota, e deflagra o processo inverso, ou seja, não crescer em determinados períodos é o que permite crescer em outros períodos, assim, crescimento e estagnação andam de mãos dadas a vida toda, precisam um do outro! Mas, vem alguém e tenta nos iludir: estamos quase atingindo o desenvolvimento auto-sustentável! Sei.

Podemos fazer uma analogia, se você gosta de bolsa de valores entende bastante do que estou dizendo, só existe bolsa porque os preços caem e sobem, caem e sobem, quando os preços caem é a condição para que eles subam mais à frente! É cíclico, eternamente cíclico! Criou-se uma idéia de que na bolsa de valores uns lutam contra outros, criou-se até a figura da luta, touro contra ursos! Que é bonito é, o touro movimenta o chifre de baixo para cima (os altistas) e o urso dá paulada com a pata de cima para baixo (os baixistas). O visual impressiona, mas não existe isso na bolsa, não há disputa de ninguém contra ninguém em nenhuma bolsa de valores. A disputa é de todo mundo com a sua inteligência, ninguém ganha o dinheiro de ninguém, no ato de uma operação, naquele exato momento em que um vendeu e o outro comprou, há, apenas, uma troca de mesmo valor, não há nem perdedores nem ganhadores, se o tempo para ali, um saiu com um valor e o outro ficou com o mesmo valor, o futuro é que vai dar ganhos a um e perdas ao outro! A disputa não é de altistas contra baixistas, não há disputa de ninguém contra ninguém, o dinheiro que um comprador ganha na bolsa não é de quem vendeu a ação para ele, e vice versa, você ganha do futuro, e quando perde, perde para ele também, o que há, é apenas troca de posse! No mercado não há disputa entre pessoas ou grupos, há apenas erros e acertos, em toda operação alguém fez uma coisa certa, o outro fez uma coisa errada, não existem dois fazendo a melhor coisa para cada um, como se fosse possível em uma operação os dois saírem ganhando, o que vendeu diz, “fiz um ótimo negócio vendendo”, e o outro diz, “fiz um ótimo negócio comprando!”, isso não existe, apenas um deles fez um bom negócio, o outro fez um péssimo negócio, sempre. Mas o ganho será dado pelo futuro, o outro está fora do futuro, perdeu para ele mesmo. Mas, isso não é disputa entre os dois, é disputa de cada um com sua inteligência , seu conhecimento, por isso os chamados insiders sempre ganham, mas não ganham dos outsiders como se diz, ganham deles mesmos!

O que você compra na bolsa? Compro ações de empresas. Não, apenas parece que é isso, você compra o futuro! Quando você compra um papel, está comprando um futuro que pode ser bom ou ruim, mas quando você vende, está ficando apenas com o dinheiro que não quis colocar no futuro. As pessoas dizem assim: "Cara, vendi hoje com um ganho fantástico, eu tinha comprado o papel ao valor de..." Esse pensamento é o maior equívoco, porque o ganho financeiro não está no passado, está sempre no que ainda vem. E, também, não está apenas em suas ações na vida, mas inclusive na sua falta de ações na vida! Ocorreu um boom no valor dos imóveis, todo mundo que comprou imóveis ganhou, você não comprou, então perdeu! Não adianta pensar que não perdeu, se tivesse aproveitado o boom de preços estaria melhor do que está hoje, então, é certo, perdeu! Na bolsa é a mesma coisa, você perde e ganha com o que ainda está por vir, e com o que deixou de fazer! É sempre o futuro, o que determina tudo, o que vai valer é o que ainda vem pela frente! Touros e ursos, é apenas um visual, como se a luta fosse com outros, que é bonito é, mas não passa de bonito!

Economeditando

5 comentários:

Fernando Saldanha disse...

Economeditando,

Parabens pelo texto, as idéias estão muito bem organizadas e harmoniosas. "Provoca reflexão"

It reminds me: "Think out of the box"

Seagull disse...

Prezado Ivan,

foi com muito gosto que tive acesso ao seu artigo através da divulgação no Monitor Financeiro.

Apreciei tanto que me permiti transcrevê-lo no meu blog pessoal (com todos os créditos para o autor, sua origem, e fonte onde tive a satisfação de encontrá-lo).

Ainda acrescentei um comentário (que copio para o Sr, mais abaixo) ilustrando minha concordãncia com a abordagem e a grande identificação que percebi com a minha filosofia operacional e postura em relação aos mercados: tudo é mesmo cíclico!

Estamos sempre apostando no futuro.. e este a Deus pertence (independente da crença de cada um), embora há quem diga que pertença aos insiders, tubarões e afins... por mais soberano que seja o mercado bursátil, ele é ainda totalmente desestruturado e sujeito às nuances macroeconomicas que foram citadas com muita propriedade.

Saiba que a leitura de seu texto foi mesmo muito prazerosa, e acredito que possa servir como alerta para esta enorme gama de novos (ambiciosos ou gananciosos?) "filhos da alta"!

Meus parabéns pela felicidade com que foi inspirado ao redigir seu artigo,

um grande e admirado abraço :-)

Marcio Relvas

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Comentário: Publico aqui este artigo de autoria do Ivan Siqueira - blog "Economeditando" - por haver uma grande convergência entre o que foi escrito por ele e a forma como percebo o mercado. Não por acaso, nesta briga entre Touros e Ursos, Tubarões e Sardinhas, etc, eu adotei o nick Seagull, que nada mais é do que um personagem inventado por Marcio Relvas.

Ele (o apelido) representa o vôo das gaivotas, que, geralmente, moram nas encostas à beira-mar, e mergulham apenas para buscar o alimento necessário para sua sobrevivência. Obviamente, quando os cardumes são fartos, podem até criar alguma reserva para si e seus dependentes.

Aqueles me conhecem há mais tempo sabem que eu gosto de uma vendinha nas opções (de preferência travada ou coberta). Fosse eu um "urso de carteirinha" (Bear), além de deixar de me beneficiar deste longo período de alta que vivenciamos desde 2003, eu teria pago muito mais "stops" do que efetivamente experimentei. As opções de compra (CALLS) não atendem apenas aos Bulls. Sua função básica - já que não dispomos dos PUTS para trabalhar a volatilidade com mais eficiência- seria proteger a carteira de ações (hedge), embora em um movimento de alta exacerbada seu poder de alavancagem seja realmente espetacular. Mas sempre fui partidário de que um "operador completo" deve saber, e poder, operar nas 2 pontas. Para cada momento do mercado deve ser desenvolvida uma estratégia que nos possibilite maior chance de êxito na apuração do resultado.

E assim minha vida vai ficando cada vez mais longa e a conta corrente não tem do que se queixar... sempre estando preparado para seguir o rumo que a tendência me levar!

Fly like a Seagull! ^v^

Anônimo disse...

Olá, Marcio,

Desejo agradecer sua visita ao Economeditando, e fico satisfeito em ver que pessoas como você que tem seu site sobre mercado, que está observando o mercado, possa ter encontrado em minha análise algum elemento para refletir, debater, discordar, esse é um campo que merece muita reflexão, e estudos, cada um colabora como pode, apresentando uma idéia aqui outra ali, nem todos vão concordar com meu texto, mas o pensamento sobre economia e finanças vive disso, de análises e debate. Embora eu não queira fazer do Economeditando um portal de discussões, prefiro apenas apresentar minha visão, mas tenho interesse em tudo o que se refere a análise econômico financeira e valorizo todo e qualquer ponto de vista.

Agradeço a você ter apresentado meu post em seu site Seagull, e, certamente, vou visitá-lo a qualquer hora. Gostei dessa imagem do "vôo das gaivotas", a luta pela sobrevivência, é muito melhor do que briga de touros e ursos, você acertou em cheio! (Ivan Siqueira)

Anônimo disse...

Acho que minha compreensão de texto anda fraca, visto que concordo com quase tudo do seu texto e discordo radicalmente da essência do texto do Ivan...

Essa história de que oportunidades perdidas são prejuízos é coisa de hospício.

O grande problema deste tipo de raciocínio, a meu ver, é que ele leva as pessoas ao overtrading, à compulsão mesmo. Se, como o autor defende, cada alta de um papel, cada valorização dos imóveis que a pessoa não participou é prejuízo, essa pessoa acaba tentando abraçar todas as possibilidades de lucro, o que obviamente é impossível...

Aí o cara vê PETR4 subindo 10% em um dia e começa a se sentir mal porque não estava dentro. Isso o afeta psicologicamente e ele acaba entrando prematuramente em outro trade.

Saber ficar de fora - e com isso abrir mão da possibilidade de alguns trades lucrativos - é uma arte no mercado financeiro. Quem quer estar sempre ganhando, seja no café, no boi gordo, na TELB ou na Varig, geralmente acaba se machucando.

Da mesma forma, me recuso a aceitar essa idéia de que quem realiza lucro cedo tem prejuízo - ou para usar de um eufemismo, deixa de ganhar. A gente deixa de ganhar o tempo inteiro, é preciso aprender a conviver com isso, aceitar...

Geralmente o cara que quer aproveitar a onda toda até o finalzinho e vender no topo, acaba vendendo na baixa. Quer dar uma de malandro, mas acaba sendo um mané... Lucro é lucro, e uma vez no bolso, não importa se o papel continuou subindo ou não, o que importa é que seu capital aumentou.

Não existe super-homem ou super-trader.

Se alguém conseguisse aproveitar metade das oportunidades que surgem em um único dia nos diversos mercados, ficaria bilionário em menos de uma semana. Todo dia tem algum ativo ou derivativo em alguma parte do mundo proporcionando lucros astronômicos...

Para mim, o negócio é conhecer e se especializar em determinados ativos/operações e se tornar bom nelas. Um dia chega a sua hora.

Enquanto isso, eu que não tenho tino pra imóveis, por exemplo, vou ficar me preocupando porque "perdi" dinheiro deixando de aproveitar a bolha? Nem...

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Aí o cara não pode tirar férias porque imagina quantas oportunidades de lucro ele vai perder durante esse tempo...

À noite, poucas horas de sono, afinal o Forex funciona 24h. E se ele perder a valorização do yene frente ao euro, às três da manhã?

"Não adianta pensar que não perdeu, se tivesse aproveitado o boom de preços estaria melhor do que está hoje, então, é certo, perdeu!"

E agora? Pânico, depressão, arrependimento...

Tempo para as crianças, nem pensar. Quer dizer, tudo o que ele faz é por elas, pelo futuro delas.

Afinal, "É sempre o futuro, o que determina tudo, o que vai valer é o que ainda vem pela frente."

"Porque o ganho financeiro não está no passado, está sempre no que ainda vem".

Não há tempo a perder, é preciso ganhar mais e mais!

Seagull disse...

pOp,

Talvez não seja esse exatamente o enfoque que ele deu ao texto.

Não pela compulsão ao lucro, ou estar exposto ao risco. Mas pela aceitação natural das coisas. O que passou passou. Viver o presente, não de glórias ou insucessos passados, muito menos esperar o que virá do futuro. Isto será consequencia de nossos atos hoje!

Neste ponto eu entendo sua discordância com algumas colocações.

A essência de tudo deve ser sempre o equilibrio. E isto não é mesmo nada fácil!

Abs ^v^