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segunda-feira, 19 de novembro de 2007

Os preços podem nos salvar

Ivan Siqueira

Suponha que você tenha um cão pitbull em sua casa. Não desejo isso a você, leitor, apenas suponha! Os assaltos a residências, em sua localidade, têm sido freqüentes. Você vai deixar seu pitbull acorrentado no jardim durante a noite, ou, mesmo, abandonado no canil?

Mas, é isso o que têm sido feito com os preços na economia brasileira. Os preços são livres, mas, infelizmente, largados, quem quer saber deles?

A palavra inflação apavora a todos, e a ordem é “domar” os preços, reduzir sua taxa de crescimento ao mínimo. Mas, qual a lógica dessa ordem? Quem inventou isso? Quem disse que inflação tem que ser a mínima possível? Ninguém sabe! Ao fazer isto, deixamos de ter uma proteção natural para a economia. Nada é mais perigoso do que conceitos pré-concebidos, impedem políticas eficazes. O governante se apega à política cambial, à política monetária, à política salarial, mas se esquece de que nada é mais eficaz para a economia do que uma política de preços! Mas, quem pratica isto por aqui? Aqui a lei é aquela, o mínimo de inflação possível! Mas, quem disse que inflação é coisa ruim? Leram isso, aonde? Preciso saber, não me deixem sozinho, por favor!

Os preços têm o poder de resolver vários dos desequilíbrios que o mercado em si não resolve. Os preços podem nos salvar. Como? Permitindo a eles uma dosagem certa de inflação, a exatamente necessária, é como antibiótico e seus miligramas. Deveria fazer parte da política econômica conduzir a aumentos salutares de preço, e reduzir esses aumentos em momentos certos, os preços podem mais do que o câmbio e a moeda, mas, por aqui, quem pensa nisso? Não falo de controle de preços, mas de política de preços ativa.

Chegou-se até a falar que inflação zero seria o ideal, pena que não conseguimos isto!! Já imaginou, nosso país sem nenhum aumento de preços, zero? Não pode haver absurdo maior! Aí, é fato, só a política cambial e monetária poderiam mudar as coisas, deixaríamos de contar com o mais eficiente mecanismo de correção de desequilíbrios econômicos, os preços, e, nesse caso, o câmbio e a moeda teriam que se virar para dar conta! Os preços são a defesa que o mercado tem para corrigir aquilo que o volume de atividade e os artificialismos introduzidos pela “mão do homem” causam no processo, se os preços são movidos por artificialidades da política econômica, e não encontram espaço para variarem segundo suas próprias necessidades, deixa o sistema de contar com potente instrumento automático de equilíbrio. Mas que artificialidades podem ser essas? Uma política cambial e monetária equivocada. Uma delas, ou ambas.

Economia tem medidas, vive das medidas! É como, para uma costureira, fazer uma roupa, 88 de busto, 64 de cintura, 94 de quadril, só esse conjunto pode fazer a roupa certa para aquela pessoa! Da mesma forma, um cardiologista não aceita que você tenha 16x11 de pressão arterial, ele vai medicá-lo, até ver sua pressão chegar a 12x7, nos níveis normais. Em economia, a taxa de inflação deve ser induzida, calculada, planejada, e exigida da economia, não é qualquer taxa de inflação que serve aos propósitos do planejamento econômico, e, muito menos, a menor taxa de inflação possível! O governante bate no peito e exclama: “Viu, o que fizemos com a inflação?” Mas, a economia, coitada, se falasse, diria: “Viu, o que fizeram comigo?”

Em dado momento, a economia necessita de determinado e específico aumento de preços. A inflação daquele mês, pode ter sido de 0,34%, mas a economia necessitava de 0,72%, necessitava de mais inflação do que obteve! Não foram tomadas as medidas certas. Os aumentos de preço devem ser tão planejados quanto o câmbio, a oferta de moeda, a arrecadação de tributos... do contrário, eles anulam os resultados da política cambial e monetária, e anulam veladamente, não avisam que estão anulando! E nós, aqui, a nos perguntarmos: gente, porque não crescemos?

Pelo exposto acima, podemos chegar ao regime de metas de inflação. É difícil entender a eficácia desse regime, fixar preços por antecipação, e esperar! É como se o prêmio fosse alcançar-se a meta, fogos de artifício no céu, independente do que isso causa na produção e no emprego! Em 1999, quando foi implantado o regime de metas de inflação, os targets eram 8% para o exercício de 1999, 6% para 2000 e 4% para 2001, independentemente do que ocorresse com a economia e suas atividades nesses períodos as metas estavam fixadas! Isso é o mesmo que carimbar: os preços não influenciam a atividade econômica!

Mas, é o contrário, nada influencia mais produção, vendas e emprego do que os preços, o crescimento econômico necessita de alavancagem de preço em vários momentos, a economia real tem que contar com um sistema de preços atrelado ao nível de emprego, o que permite a correção dos desequilíbrios a curtíssimo prazo, câmbio e taxa de juros não passam de elementos secundários quando comparados aos preços. Metas de inflação, é demais! Pense em uma economia com metas de câmbio e metas de juros, fixadas para os próximos três anos, é loucura! É difícil nos acostumarmos com esse carrossel de generalizações em que o país se acostumou a rodar! Preços são como uma válvula, que deve ser apertada ou afrouxada, a cada hora, a cada instante, como o câmbio, como os juros... O longo prazo nada mais é do que uma sucessão de curtos prazos, não dá para deixar o tempo passar! Fora disso, é como ter um pitbull, acorrentado, ou abandonado... ou, como bem disse Keynes, "a longo prazo estaremos todos mortos"!

Economeditando

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