A crise do mercado de hipotecas americano que vem provocando pânico nas bolsas de valores pelo mundo chegou ao mercado de renda fixa brasileiro. Ontem, a Duke Energy, que controla oito usinas hidrelétricas, anunciou a suspensão de uma emissão de R$ 750 milhões em debêntures por causa das "condições verificadas nos mercados nacional e internacional nos últimos dias".
Esta foi a segunda emissão de debêntures suspensa recentemente. A Serra do Facão Participações, empresa controlada pela Oliveira Trust e Furnas, também pediu suspensão por 60 dias de uma oferta de R$ 140 milhões em debêntures simples.
O pânico geral no mercado, que começou na segunda-feira, está dificultando a formação das taxas para definir a rentabilidade das debêntures, afirma um gestor de um banco de investimento. "Está todo mundo em compasso de espera", diz Carlos Alberto Rebello, superintendente de registro da Comissão de Valores Mobiliários (CVM).
"Quem precisar captar neste momento terá que pagar taxas mais altas" avalia André Schibuola, gestor da Precision Asset Management, uma das poucas gestoras do mercado especializadas em fundos para papéis privados.
Apesar do forte estresse dos últimos dias, os especialistas em renda fixa avaliam que as debêntures tendem a se beneficiar deste novo cenário. Com o investidor mais avesso ao risco e o mercado de renda variável fechado, a expectativa é que as companhias que precisam de recursos vão procurar as debêntures.
Segundo a Comissão de Valores Mobiliários (CVM), há 23 operações de captação de recursos suspensas no momento, 21 de ações e duas de debêntures.
"É um fato isolado (a suspensão da emissão da Duke). O mercado de renda fixa iria crescer consideravelmente este ano sem a crise. Com a crise, tende a crescer mais ainda", avalia Alfredo Moraes, presidente da Associação Nacional das Instituições do Mercado Aberto (Andima) e do Banco Intercap. Para Moraes, muitas empresas que abriram o capital e lançaram ações no ano passado vão voltar ao mercado e emitir debêntures, uma das formas de melhorar a estrutura de capital da companhia, equilibrando captações via dívida e via ações.
A Even Construtora e Incorporadora e a Cyrela Brazil Realty, duas companhia que lançaram ações, estão com operações em análise na CVM para captarem R$ 150 milhões e R$ 370 milhões por meio de debêntures.
Diferente do mercado acionário - no qual mais de 70% das ações ficam com estrangeiros - as debêntures raramente atraem recursos lá de fora, porque não oferecem isenção do Imposto de Renda.
Continua

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